Ninguém me entendeu tão bem como você
terça-feira, setembro 27, 2016
Estranha. Era assim que as muitas pessoas a minha volta faziam eu me sentir. Mesmo com pensamentos suicidas e por muitas vezes me sentindo um lixo, tentava não me deixar abalar, mesmo não conseguindo aguentar toda aquela pressão de ter que ser um padrão, um padrão que não existe. Não conseguia aguentar e desabava. Se chorei? Claro, até pegar no sono. O mundo pode ser um lugar cruel para quem é “diferente”. Mesmo assim, depois de tudo que passei ao longo desses meus trinta anos, hoje percebo que foi graças à todos aqueles que sempre me diminuíram, que consegui dar a volta por cima e me tornar a pessoa que sou hoje, sem medo de ser quem sou.
Sabe, nunca me considerei igual as outras garotas do colégio, nunca aguentei piadinhas sobre como me vestia, ou como me portava, sempre encarei meus problemas com a cabeça erguida mesmo que isso me fizesse desmoronar por dentro todas as noites. Minha infância não foi perfeita, sempre me metia em confusões, porque na maioria das vezes não era compreendida e sempre questionava. Em casa eu era vista por minha mãe como uma maluca sonhadora que não tinha os mesmos sonhos que as garotas da minha idade, e tampouco se vestia como elas, mas não era por eu não me vestir igual, que não era fascinada por maquiagem. Na verdade, a make que eu fazia era tão diferente que fugia um pouco do “padrão”, sempre puxando um pouco para tons mais escuros, o que naquela época não era bem visto pelas pessoas, e minha mãe sempre que via como eu estava maquiada me fazia tirar. Sempre com a desculpa esfarrapada de “o que as pessoas da vizinhança vão falar se te ver assim”, o que eu não dava a mínima importância, afinal eu só queria me sentir bem comigo mesma criando arte, nem que fosse no meu rosto.
Sempre tive facilidade para criar desenhos, que muitos diziam ser rabiscos, não importava a situação as ideias sempre vinham a minha cabeça, como se minhas emoções fluíssem para a ponta do lápis. Às vezes, parecia engraçado de onde vinham minhas inspirações, lembro-me de ter tirado uma nota baixa no colegial e do nada comecei à transformá-la em um desenho engraçado que mostrava como estava me sentindo naquele momento. Falando em notas baixas, isso não era novidade pra mim já que até os professores não iam muito com a minha cara por eu sempre está metida em confusões. Confusões essas, que eram criadas apenas para me prejudicar ainda mais, por meninas que de alguma forma se incomodavam com a minha presença, até hoje não consigo entender o motivo de tanto ódio por alguém que não estava nem um pouco ligando pra elas. Na sala de aula sempre sentei no canto esquerdo perto da janela o que ajudava na hora de criar meus desenhos, e nunca fui de brigar com ninguém sem motivo, simplesmente as pessoas me olhavam no colégio com um olhar de negação o que me deixava ainda mais triste, sem contar os xingamentos e provocações que recebia todos os dias. Chegou um tempo em que tudo o que me fazia era sentar e chorar na biblioteca, já que tudo que eu dizia não surtia nenhum efeito.
Finalmente com 18 anos, depois de terminar o ensino médio arrumei um emprego em uma cidade a 500 km de onde todos que conhecia moravam e saí de casa mesmo contra a vontade da minha mãe, queria ver o mundo por outros olhos, respirar novos ares, começar uma vida nova. Trabalhei por 2 anos como vendedora, e por incrível que pareça também fui motivo de piada dentro da loja — diziam que eu não sabia falar— e isso me deixava deprimida todas as noites. Até que um dia deixei de ir ao trabalho e me tranquei dentro de casa, fiquei abaixo do peso, não queria ver ninguém nem muito menos falar, pensei em suicídio por algum tempo, queria parar de sentir dor e de me sentir mal. Foi então que ao acordar — na sexta-feira do dia 15 nov 2002 — após ouvir o som de alguns passarinhos na janela do meu banheiro, que vi colado ao lado do espelho um dos primeiros desenhos que tinha feito quando criança. Sempre gostei de ficar olhando para ele, não porque era um dos únicos desenhos que tinha sobrevivido desde que tinha me mudado, mas sim para lembrar que desenhar sempre foi uma das minhas paixões. Sem nem pestanejar peguei um tela que tinha guardado debaixo da cama junto com alguns pincéis e potes de tinta que havia guardado em cima do guarda roupa e comecei a pintar — mesmo sem ter acordado direito — o que estava sentindo queria que aquela pintura descrevesse todo o sofrimento que sentia. E assim fiz, pintei e enquanto o café estava no fogo criei um perfil no PicsWork — um site de vendas de quadros online— e depois de 24h consegui vender não sei como aquele quadro, que de imediato me rendeu dinheiro suficiente para comprar materiais de pintura e formar meu próprio ateliê em uma galeria no centro da cidade, lugar onde conheci Donatello um fotógrafo que é uma das minhas inspirações, a pessoa que me completa por inteira e me apoia em minhas decisões mais loucas.
Hoje 10 anos juntos, ainda não consigo acreditar que encontrei a pessoa que me faz ser o meu melhor todos os dias, deve ser porque você passou pelos mesmos problemas que eu e mesmo assim consegue sorrir e iluminar o que um dia estava apagado dentro de mim. Depois de tantos perrengues, posso dizer que sempre vai existir alguém para mostrar que não é preciso ter alguém para preencher o vazio que o mundo te fez sentir precisar, só é preciso se amar e ser você mesmo.


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